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A violência contra crianças e adolescentes segue como uma das faces mais graves da desigualdade social no Brasil e não pode ser tratada como um problema distante ou restrito a determinados contextos. O alerta é do arcebispo de Maringá, Dom Frei Severino Clasen, que atualmente preside a Pastoral da Criança em nível nacional. Para ele, proteger a infância é uma responsabilidade coletiva que envolve famílias, poder público e toda a sociedade.
Segundo Dom Severino, a violência contra crianças não se manifesta apenas de forma explícita, por meio de agressões físicas, mas também em situações de negligência, abandono emocional, fome, falta de acesso à saúde e ausência de vínculos familiares.
“Quando uma criança cresce sem cuidado, sem proteção e sem oportunidades, a sociedade inteira falha”, avalia.
Violência que nasce da desigualdade
Na leitura do arcebispo, há uma relação direta entre desigualdade social e violência contra crianças. Famílias submetidas a condições extremas de pobreza, insegurança alimentar e falta de acesso a serviços básicos acabam mais expostas a situações de estresse, ruptura de vínculos e fragilização do cuidado. Nesse contexto, crianças tornam-se as principais vítimas.
Dom Severino chama atenção para o fato de que a violência não pode ser analisada de forma isolada.
“Ela nasce de uma cadeia de abandono”, afirma. Falta de políticas públicas eficazes, desemprego, precarização do trabalho e ausência de apoio às famílias criam um ambiente propício para que a infância seja violada de múltiplas formas.
O papel da Pastoral da Criança
Como presidente da Pastoral da Criança, Dom Severino destaca que o trabalho da entidade vai muito além do acompanhamento nutricional ou de orientações básicas de saúde. A atuação envolve escuta, presença constante nas comunidades e fortalecimento dos vínculos familiares, especialmente nos primeiros anos de vida.
Criada em 1983, a Pastoral da Criança atua em todo o território nacional por meio de uma ampla rede de líderes comunitários voluntários. O foco está no cuidado integral da criança — físico, emocional e social —, desde a gestação até os primeiros anos de desenvolvimento. Ao longo de sua história, a entidade contribuiu de forma significativa para a redução da mortalidade infantil no país.
Para Dom Severino, proteger a criança é investir no futuro da sociedade. “Quando cuidamos da infância, estamos prevenindo a violência lá na frente. Estamos formando pessoas mais seguras, mais humanas e mais capazes de conviver”, afirma.
Cuidado, presença e responsabilidade coletiva
O arcebispo defende que o enfrentamento da violência contra crianças não pode se limitar a discursos ou ações pontuais. É preciso construir uma cultura do cuidado, que valorize a presença dos pais, o fortalecimento da família e o apoio às comunidades mais vulneráveis.
Nesse sentido, Dom Severino reforça que a Igreja, por meio da Pastoral da Criança, atua como parceira do poder público e da sociedade civil, mas não substitui o papel do Estado. “A proteção da infância exige políticas públicas consistentes, investimento contínuo e compromisso social”, ressalta.
Trajetória marcada pelo cuidado
A atuação de Dom Severino à frente da Pastoral da Criança dialoga diretamente com sua trajetória pastoral. Antes de assumir a Arquidiocese de Maringá, em 2020, ele atuou em regiões marcadas por extrema pobreza, como o Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Essa experiência, segundo ele, moldou sua compreensão sobre a urgência do cuidado com os mais vulneráveis.
Seu lema episcopal — acolher e cuidar — sintetiza essa visão. Para o arcebispo, não se trata apenas de uma diretriz religiosa, mas de um compromisso ético com a vida. “Cuidar das crianças é cuidar da humanidade”, resume.
Dom Frei Severino Clasen falou sobre sua trajetória, fé e desafios sociais contemporâneos no episódio especial de Natal do podcast Ponto a Ponto, do Jornal Maringá Post, disponível no YouTube. A entrevista, concedida ao jornalista Ronaldo Nezo, ajuda a compreender o olhar pastoral e social que também orienta sua atuação nacional à frente da Pastoral da Criança.





